Usar ou Não Suplementação Vitamínica Em Aves de Rapina?

February 26, 2016

 

 

Na natureza a maioria das aves de rapina são comedores oportunistas, ou seja comem o que tiver acesso, aves, répteis, mamíferos, insetos, carcaças. Uma dieta natural é impossivel de replicar em cativeiro (Dierenfeld et al., 1994), mesmo porque um animal de vida livre tem a possibilidade de escolha, seja ela determinada pela facilidade de encontrar determinado alimento ou pela disponibilidade no momento, enquanto que um animal de cativeiro não. Além disso animais de cativeiro tem necessidades nutricionais diferentes daqueles de vida livre. Isso se dá por conta do tipo de atividade que ele exerce. As aves selvagens, muitas vezes vivem vidas curtas e morte por desnutrição é a causa mais comum de mortalidade em populações selvagens (Keymer et al, 1980;. Hirons et ai. 1979; Brue 1994). Essencialmente a alimentação de aves em cativeiro deve ser baseada nas necessidades criadas para tal em detrimento das atividades do animal naquela condição.

 

O objetivo principal é manter a saúde ótima do animal e alcançar a maior longevidade possível visando atingir o maior potencial do animal, seja de voo, caça ou reprodução. Tal objetivo pode ser alcançado otimizando a dieta, fornecendo alimentos adequados de boa qualidade, que tenham o balanço adequado de vitaminas e minerais, de boa procedência e de preferência fresco, ou que tenham sido acondicionado em condições adequadas.

 

 

Como princípio básico, é importante lembrar que cada uma das espécies de aves de rapina evoluiu milênios mais para preencher um nicho ecológico muito específico (Brue 1994). O consumo da presa por um rapinante envolve muito mais do que somente a musculatura, e sim penas, ossos, pêlos, conteúdo estomacal. Ítens que muitas vezes não fazem parte da dieta do animal em cativeiro, portanto, a dieta oferecida aos animais que servirão de alimento para os rapinantes deve também ser levada em consideração. Foi estabelecido que em um rapinante a exigência varia de acordo com o tamanho do corpo. Urubus e águias requerem aproximadamente <10% do peso em alimentos, grandes falcões e Accipiters de 10 a 15%, enquanto pequenos falcões de 20 a 25% do peso vivo(Kirkwood 1980 e 1985).

 

 

Muitos dos modernos falcoeiros acredidam que a suplementação vitamínica é essencial para a boa manutenção da ave cativa. Dosando o seu uso e entendendo bem o momento que deve ser usado, os suplementos podem ser  grandes aliados, mas quando utilizado de maneira irresponsável, ao contrário de trazer benefícios, pode causar graves prejuízos para o animal.

 

A suplementação vitamínica não é um substituto para uma boa nutrição básica (Sandfort et al. 1991, a Forbes & Rees Davies 2000), além disso se a ave vem recebendo uma boa dieta, o suplemento só será necessário em um momento de stress adicional como muda e reprodução.

 

Suplementos incorretamente equilibrados, ou seja, um suplemento vitamínico/ mineral com base em necessidades nutricionais de uma espécie é improvavel que seja adequado para outra espécie (Angel & Plasse 1997, a Forbes & Rees Davies 2000).

 

Um outro problema que encontramos é a quantidade do suplemento a ser fornecida. Em um estudo realizado no Houston Zoo, grandes variações foram encontradas entre recomendações da quantidade de suplementos a serem oferecidos na dieta diária, podendo uma “pitada” pesar entre 0,1 e 1,9 g. A suplemtação vitamínica tambem não apresentou nenhuma diferença detectável na saúde dos animais. (Dierenfeld et al. 1989).

 

Segundo um trabalho publicado por Nancy J. Clum presas inteiras domesticadas são uma fonte potencialmente inadequada de Vitamina E para aves de rapina. Estudos relatam que presas congeladas e descongeladas, como ratos e camundongos, por exemplo, apresentam grande degradação na quantidade de Vitamina E. Considerando a suplementação de vitamina E, esta pode ser feita sem medo, poucos são os casos de excesso de vitamina E no organismo e fornecer quantidade que chegue a níveis tóxicos é improvável.

 

Hipervitaminoses, ou excesso de vitaminas, também pode levar a sérios problemas de saúde, por exemplo o excesso de vitamina A pode ser tóxico, tendo os sinais clínicos do excesso muito parecido com a deficiência.

 

Concluimos que uma alimentação variada com presas inteiras é mais desejavel e exige pouca ou nenhuma suplementação. (Carpenter et al., 1987, Burnham et al., 1987, Dierenfeld et al. 1994, Bruning et ai. 1980, Lavigne et al. 1994a & 1994b, Forbes e Rees Davies, 2000).

 

Sendo assim, para fazer uso dos suplementos, deve-se antes prover uma alimentação rica, variada e saudável, tendo cuidado de observar a procedencia do alimento, o modo de  armazenamento e o prazo em que o alimento encontra-se armazenado. Sempre que for possivel fornecer alimento fresco e saudável, ficando atento à possíveis fontes de contaminantes na hora do preparo. Tomando essas precauções, teremos aves saudáveis e sempre prontas para  o vôo.

 

REFERÊNCIAS

 

Dierenfeld E.S., Clum N.J., Valdes E.V. & Oyaruz S.E., (1994). Nutrient composition of

whole vertebrate prey: a research update. Proc. Assoc. Zoo Aquaria Conf., Atlanta, GA- USA.

 

Keymer I.F., Fletcher M.R. & Stanley P.I., (1980.). Causes of mortality in British

kestrels. In Cooper & Greenwood [Eds.] Recent advances in the study of raptor

diseases. Chiron Publications, Yorks., UK. 143 –152.

 

Hirons G., Hardy A. & Stanley P., (1979.) Starvation in young tawny owls. Bird Study.

26:59 – 63

 

Brue R.N., (1994.) Nutrition In: Ritchie B.W., Harrison G.I. & Harrison L.R. [Eds.]

Avian Medicine – Principals and Application. Wingers Publications., Lake Worth, FL USA.

 

Kirkwood J.K., (1980). Maintenance energy requirements and rate of weight loss during

starvation in birds of prey. In Cooper & Greenwood [Eds.] Recent advances in the study

of raptor diseases. Chiron Publications, Yorks., UK. 153 - 157.

 

Kirkwood J.K., (1985). Food requirements for deposition of energy reserves in raptors.

In : Newton I. & Chancellor R.D. [Eds] Conservation studies on raptors: Proceedings of

the ICBP World Conference on Birds of Prey, 1982: 295-298. Cambridge: International

Council for Bird Preservation.

 

Sandfort C., Dierenfeld E. & Lee J., 1991

Nutrition. In Weaver & Cade [Eds.] Falcon propagation - A manual on captive breeding.

The Peregrine Fund, Inc. Boise, Idaho USA.

 

Forbes N.A. & Rees-Davies R., (2000). Practical raptor nutrition. In Proceedings

Association of Avian Vets Annual Conference. AAV. Lake Worth. Florida.

 

Angel R, Plasse R.D., (1997. ) Developing a zoological avian nutrition programme. In:

Proceedings American Association of Zoo Veterinarians Annual Conference. pp 39-43

 

Carpenter J.W., Gabel R.R. & Wiemeyer S.N., (1987). Captive breeding: Eagles. In:

Giron Pendleton B.A., Millsap K.W., Cline K.W. & Bird D.M. [Eds.] Raptor management

techniques manual. Nat. Widl. Fed., Washington, DC USA. 349 -371.

 

Burnham W.A., Weaver J.D. & Cade T.J., (1987). Captive breeding: Large falcons. In:

Giron Pendleton B.A., Millsap K.W., Cline K.W. & Bird D.M. [Eds.] Raptor management

techniques manual. Nat. Widl. Fed., Washington, DC USA. 349 -371.

 

Bruning D., Bell J. & Dolensek E.P., (1980.) Observation on the breeding of condors at

the New York Zoological Park. In: Cooper & Greenwood [Eds.] Recent advances in the

study of raptor diseases. Chiron Publications, Yorks., UK. 49 – 50

 

Lavigne A.J., Bird D.M. & Negro J.J., (1994a). Growth of hand-reared American kestrels

I. The effect of two different diets and feeding frequency. Growth, Development & Aging

4: 191-201

 

Lavigne A.J., Bird D.M. & Negro J.J., (1994b). Growth of hand-reared American kestrels

II. Body composition and wingloading of fledglings fed two different diets. Growth,

Development & Aging 4: 203 – 209.

 

 

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